Adin Ballou, via citação por Leon Tolstói. Livro "O Reino de Deus está em Vós, ou, O cristianismo apresentado não como uma doutrina mística mas como uma moral nova". Capítulo 1: "A doutrina da não resistência ao mal por meio da violência tem sido ensinada pela minoria dos homens desde a origem do cristianismo". Edições BestBolso, Rio de Janeiro, 2016.
Prometi abandonar tudo e a Ele seguir até a morte, na alegria ou na dor. Mas sou cidadão da República Democrática dos Estados Unidos, à qual prometi ser fiel e sacrificar minha vida, se for o caso, pela defesa de sua Constituição. O Cristo me ordena que faça aos outros aquilo que desejo que seja feito a mim mesmo. [...] E, apesar disso, continuo a eleger ou a ser elegível, ajudo a gerir os negócios do Estado, estou também inteiramente pronto para aceitar qualquer cargo governamental. E isso não me impede de ser cristão! Continuo a praticar a minha religião, não encontro a menor dificuldade de cumprir, ao mesmo tempo, meus deveres para com Cristo e com o Estado!
Jesus Cristo me proíbe de resistir [por meio do mal] àqueles que cometem o mal e arrancar-lhes olho por olho, dente por dente, sangue por sangue, vida por vida.
Meu governo exige de mim exatamente o contrário e constroi sua defesa contra os inimigos internos e externos sobre o patíbulo, sobre o fuzil e sobre a espada, e o país é amplamente provido de forças, arsenais, navios de guerra e soldados.
Não existe meio de destruição que pareça excessivamente caro! E achamos muito fácil praticar o perdão das ofensas, amar nossos inimigos, abençoar aqueles que nos amaldiçoam e fazer o bem àqueles que nos odeiam!
Temos, para isso, um clero permanente que reza por nós e invoca as bênçãos de Deus sobre nossas santas carnificinas.
Vejo perfeitamente tudo isso (a contradição entre a doutrina e os atos) e continuo a praticar a minha religião e a servir o país, e me glorifico por ser, ao mesmo tempo, um cristão e um servo devoto e fiel do governo. Não quero admitir esse louco conceito de não resistência ao mal [por meio do mal], não posso renunciar à minha parcela de influência e abandonar o poder apenas aos homens imorais. A Constituição diz que o governo tem o direito de declarar a guerra, e eu consinto, e o apoio, e nem por isso deixo de ser cristão!
Também a guerra é um dever cristão! Não será, talvez, praticar um ato cristão matar centenas de milhares dos próprios semelhantes, violentar mulheres, destruir e incendiar cidades e cometer toda espécie de crueldade?
É tempo de abandonar todo esse sentimentalismo pueril! Eis o verdadeiro meio de perdoar as ofensas e amar os nossos inimigos. Porque, sendo feitos em nome do amor, nada é mais cristão do que esses massacres.
Um homem sozinho não deve matar: se ele matou, é um réu, um homicida. Dois, dez, cem homens, se matarem, serão também homicidas. Mas o Estado ou o povo podem matar, quanto queiram, e seu ato não será um homicídio, e sim uma ação gloriosa. Trata-se somente de reunir o maior número possível de pessoas e a matança de dezenas de homens se transforma numa ocupação inocente. E quantos homens são necessários para isso? Eis a questão. Um indivíduo não pode roubar e saquear, mas um povo inteiro pode.
Por que um, dez, cem homens não devem infringir as leis de Deus, enquanto uma grande quantidade pode?
P -- devemos aceitar a expressão "não resistência" em seu sentido mais amplo, ou seja, que ela significa que não devemos opor qualquer resistência ao mal?
R -- Não. Ela deve ser compreendida no sentido exato do mandamento de Cristo, isto é, não pagar o mal com o mal. É preciso resistir ao mal com todos os meios justos, mas não por meio do mal.